terça-feira, 4 de junho de 2013

luna, alexandre frota e o cachorro jerry

Outro dia veio um indiano tamanho PP aqui em casa pra cortar os galhos de uma árvore que já estava criando vida própria e entrando pelas janelas da casa. O rapazote subiu em um galho mais fino que o braço de Gisele Bundchen e o raio do galho não quebrou.

Eu fiquei ali na janela, comendo uva e contemplando a leveza do rapaz.

Uva vai, uva vem, senti alguém puxando a minha saia. Era Luna que me olhava, fazia barulhos indecifráveis e mexia a língua para esquerda e para direita - um jeito meigo de dizer que está com fome. De novo.

Levantei a bichinha no colo e disse:

"Luna, meu amor. Se fosse você ali trepada, aquele galho já tinha era quebrado em três partes, né não?"

Ela me sorriu e  me olhou no fundo dos olhos, enquanto os dedinhos gordos e serelepes surrupiavam as uvas todas.

Esse é o tanto de tempo que eu não venho aqui: minha filha já está mais pesada que um indiano adulto de médio porte e eu não registrei na-da por aqui ainda.

Então vamos ao resumão:

1. Luna é pesada, Luna é comprida.

Totalmente diferente do irmão, que só teve 10 kilos aos, sei lá, dois anos de idade. Abacate, chuchu, mamilos, quiabo, papel, guarda-chuva, nota promissória. Tá na mão, ela come. E pimba na cabeça das pessoas que insinuavam que meu filho não comia por minha culpa. Hoje tenho pra mim que a pessoa já nasce trabalhada no DNA de comilança ou não-comilança. Todo um ácido ribonucleico distinto um do outro, gente? E saídos da mesmíssima barriga, vá entender.

2. Luna ri.

Mas ri, assim, de engasgar. Ri de borboleta, ri de barulho de pum. Outro dia ela viu uma foto de Lula no computador e riu copiosamente. Eu então conclui que uma pessoa que ri de um petista barbudo há de rir de qualquer coisa nessa vida. E é debochada, a bicha. Posso estar enganada mas não lembro do primogênito rir de doer a barriga ao me ver com a toalha enrolada na cabeça depois do banho. Acho que o gene da sacanagem e do deboche vão fortalecendo a cada geração.

3. Luna acorda quatro, seis, oito vezes por noite.

Não há um só dia que eu não acorde, olhe pra ela e diga "Você me tome prumo ou eu te mando pra França". E na França ela sabe o que lhe espera: toda uma gama de bebês dormidouros, comportados e filhos de mãe magra. Ela tem medo e promete mudar.

4. Luna e o irmão se amam.

Se lambem, se abraçam se beijam. Almas gêmeas. Noah me proibiu, inclusive, de dizer que vou mandá-la pra França. Quando sou voluntária na escola levo Luna a tira-colo. Ele se realiza: "minha irmã, meu bebê, não toquem no meu bebê". Se orgulha muito dela. Ele teve uma fase difícil, do nascimento até pouco tempo atrás - principalmente quando estivemos no Brasil. Também, calcule: entre um garoto de 4 anos e uma bebê cujas  pernas não conseguem nem se separar e nem se juntar, tamanha adiposidade entre elas, quem que o povo queria apertar? Ele ficou bastante enciumado e pentelho, mas nunca com ela. Hoje ele superou, ficou ainda mais gostoso e voltou a sorrir com os olhos.

photo-4


5. Luna paga pra não sair do lugar.

Noah com essa idade não me dava um minuto de sossego, comia carpete, lambia tomada, derrubava livros. Luna é econômica: engatinha, mas só quando precisa MESMO. Do contrário fica sentada, coisa que já faz desde os 4 meses. Senta e olha a banda passar. Quando almeja um brinquedo distante, primeiro pede a escrava (eu). Se eu não acato ela recorre a Cruz Vermelha, ao Exército da Salvação, a ONU. Se ninguém a ajuda e ela pre-ci-sa engatinhar para alcançar o tal brinquedo, ela vai. Mas vai e já faz tudo o que tem que fazer lá do outro lado: pega o brinquedo, aproveita a viagem e faz a unha, faz mercado. Tudo na lei do mínimo esforço. Afinal, ela não sabe se voltará para aquela região tão cedo.

***

Eu moro longe, não tenho carro e sou constituída de hormônios de toda sorte. Resultado? Dei pra fazer caldo de carne caseiro.

Fiquei amiga do açougueiro, de onde compro os ossos pra fazer os caldos. Com ele converso sobre mocotó e canela de boi, acho descontraído (minha vida é um tédio, sim ou com certeza?)

Ele me garante que os ossos são de boa procedência - I mean, se você não puder confiar em vacas australianas alimentadas exclusivamente de grama em quem mais você pode confiar nesse mundo, meu deus?

Eu gosto do açougueiro, só não gosto do assistente dele que, por ser asiático, é extremamente sincero:

- Vai fazer caldo? De novo? - o assistente pergunta.

- Vou, ué.

- Ah.

Então ele enche as bochechas de ar, balançando a cabeça pra lá e pra cá, imitando uma gordinha faceira.

Também não vou aceitar o pedido dele de amizade no Facebook.

***

Minha filha tem 8 meses e já tem gente me perguntando quando vem o terceiro.

Vejam, o terceirim está praticamente descartado não é pela trabalheira, nem pelas acordações, deboches, papelões na escola, açougueiros abochechados ou qualquer sorte de perrengue advindo da criança em si.

O que me aporrinha é a gravidez.

Me dê gêmeos recém nascidos pra eu cuidar mas não me dê uma gravidez.

Me dê trigêmeos coliquentos mas não me dê 9 meses de prenhice.

Me dê quíntuplos. Pior: me dê quíntuplos insones. Não, não, pior: Me dê quíntuplos insones, filhos de Alexandre Frota, que me deixa em casa cuidando dos 5 enquanto posa de vestido de noiva.

 

[caption id="attachment_2238" align="aligncenter" width="500"]Ora, vá cuidar dos cinco frotinhas e me deixe aqui. Ora, vá lá cuidar dos cinco frotinhas e me deixe aqui, car*lho![/caption]

Esse é o tanto que eu desgosto da gravidez.

***

Mas também não dá pra confiar muito nas minhas convicções. Até semana passada eu não afirmava categoricamente que não queria cachorro?

"Só teremos cachorro quando Noah souber limpar a bunda - a dele e a do cão"

Mas eis que chegou a mim um compartilhamento feicibuquiano:  uma ONG procurava alguém para adotar Jerry.

Jerry é um filhote bem sofrido: separado da mãe e do irmão, ele foi encontrado na rua, chorando, cás-conta pra pagar e com o rabo quebrado.

Foi levado ao veterinário, sofreu uma cirurgia, arrancaram-lhe (parcialmente) o rabo. Muito doce e serelepe, se recuperou rapidamente.

E um aviso da ONG:

"Se não encontrarmos alguém para adotá-lo ele terá que ser executado na semana que vem, em obediência às leis singapurianas."

Ouviram? Poderá ser e-xe-cu-ta-do.

Escrevem isso e me colocam ESTA foto:

389607_10151641739274662_993999238_n

Agora vá dormir com essa barulheira, cumadi.

Me canditei, né gente. Executado??  Com uma orelha pra cima e uma pra baixo, desse jeito?

God is more.

O pessoal da ONG vai vir em casa no fim de semana para atestar se nossa casa é apropriada pro nosso coleguinha.

E é de suma importância que eu mostre a eles que aqui em casa não há sujeira:

photo-1


 Que não há qualquer forma de violência:

photo-2


Que aqui imperam disciplina e bons modos:


IMG_2748


Sem prática de trabalho infantil de qualquer espécie:


IMG_4221


Uma família normal e tranquila, acima de tudo:


photo-3


 

Há outros candidatos, a ONG vai escolher o mais apropriado.

Torçam pra que Jerry fique bem, não importa onde, não importa com quem.

(Ora, francamente, é claro que importa. Torçam por nós?)

Eu volto aqui pra contar.