quarta-feira, 29 de agosto de 2012

as mudanças, a grávida que só fazia chorar e a boa hora

Ah, então vocês acham que eu não gostaria de vir aqui todo dia bater papinho?

Mas é lógico que gostaria, fofoletes. Mas não dá, o que se há de fazer?

Eu estava até  pensando com meus botões não fechantes: eu não sou uma pessoa muito dada à inveja, sabe?

Sei lá -  esse sentimento simplesmente não compõe muito meu repertório.

Mas se tem uma coisa que eu invejo nessa vida é a pessoa ter tempo, disciplina e disposição pra escrever no blog com frequência. Tipo todo dia?

Ai, eu acho tão chique,  tão comprometido, tão álbum de recordação. Claramente este não é meu caso e, neste ano especialmente, este blog ficou plenamente entregue às baratas e demais bichos escrotos oportunistas. Deixa pra lá, ano que vem recupero (ou não).

***

Mas bora atualizar, colegas?

Da última vez que nos vimos eu estava toda faceira, decorando o quarto de bebéia, confere?

Pois lá estava eu, toda cantarolante, toda laiá laiá, toda Smurfete:  arrumando o quarto da bichinha, assuntando no MMqD, cuidando do mais velho, fabricando pessoa no ventre, exercendo minhas funções de pessoa do lar, quando, do nada...

Cabrum! Mudança à vista.

Mudança de casa, do latim: e gravidezes lá és momentus de mudanças des domicilis?

Até aí você pode dizer "Ah, mas não é pra tanto drama, vá Roberta?"

E eu te respondo: é pra tanto drama sim, senta aqui e bora assuntar:

O lance é que a gente resolveu correr atrás do sonho de toda pessoa classe média que se preze - trocar um apartamento pequeno e central por uma casa com quintal, localizada na esquina da putaquel com os quintos dos.

Ou nos suburbs, como gringo adora dizer.

Gente? Vou falar uma coisa, procurar casa não vem a ser tarefa fácil. Muito diferente de buscar apartamento, casa é cheia de detalhes, cheia de traquinagenzinhas, cheia de mistério.

Olha, até fantasma eu vi numa delas. Virei pro agente gringo e disse:

- Bonita a casa é. Pena que é mal assombrada.

Gente, mas o homem deu um pulo, cumadis, um pulo. Foi correndo pro carro,  sem nem se despedir do bocado de fantasma que ali residia.

Que mais que eu vi. Ah! Vi lagarto do tamanho de criança de 4 anos, juro pela fauna brasileira. Coisa de louco: eu lá, tentando prestar atenção no que o agente dizia:

"Veja, Roberta, o jardim isso, o jardim aquilo";

...quando vejo aquele rabo verde pré-histórico passando bem atrás do agente medroso - o mesmo agente cagão dos fantasminhas.

Primeiro vi o rabo. Depois vi o resto da criatura, toda trabalhada na lerdeza, toda bonachona, passeando pelos jardins da propriedade. Olha, não é o tipo de bicho que você deseja ver ao acordar.  Deus é mais, o bicho é uma mistura de jacaré com dinossauro - não dá pra achar lagarto cuti-cuti.

Mas ó, a gente reclama de ter que procurar casa e se deparar com fantasma e lagarto, mas pensem colegas, o quanto deveria ser difícil pra pessoa procurar casa na época dos tiranossauros rexes, deus os tenha? Não, colegas, aquilo não era vida! Quem ia querer um troço daquele no quintal da própria casa?

Duas dúzias de casas depois e eu finalmente encontrei um chuchuzinho de domicílio, sem assombração e sem bichos compridos, rabudos e pré-históricos no quintal. A casa era aquela, eu tinha certeza.

Mas como pobre é cagado, as coisas não poderiam ser tão simples assim. Tá lá, no Estatuto da Pobreza "Não praticarás mudança de maneira fácil e corriqueira. Alguma merda há de lhe esperar no meio do caminho."

E esperava: eu tinha que sair do apartamento no dia X. A casa só estaria disponível no dia Y. Entre X e Y a família teria que aciganar em algum lugar provisório. Vida de retirantes? Praticamos.

O processo foi assim:

Encaixota tudo. Manda pra depósito de móvel. Chora as pitangas. Fica sem teto. Entra em processo de aciganamento. Vai pra lugar provisório. Enbarriga cada dia mais. Catuca pai, mãe, filho.

E o medo da bebéia vir ao mundo sem um único bórizinho pra vestir, sem uma única meia pá butá no pé.

"Já vai nascer maltrapilha e sem nome", eu pensava.

E chorava lágrimas ciganas. Tipo Sandra Rosa Madalena - versão buxuda.

[caption id="attachment_2159" align="aligncenter" width="300" caption="sem teto! sem bórizinho! sem uma meia pá calçá!"][/caption]

***

E quando eu digo que chorava, eu chorava mesmo.

Existe alguma coisa por trás desta gravidez que está me levando às lágrimas com uma frequência vergonhosa. Choro, choro, choro. Alguém me disse que isso tem a ver com o fato de esperar uma menina, mas não sei se acredito muito nisso. Vocês?

Mas é bem verdade que, barriguda de Noah, tudo era tão diferente! Eu não sabia o que era chorar, eu era o cão chupando manga - furiosa e esbravejante. Toda mandona, todo um mix de Lecy Brandão com viúva Porcina.

Já nessa, quanta diferença. Chego andar com lencinho no bolso, colegas, tamanha sofreguidão.

Sigo sendo viúva Porcina, claro, difícil a pessoa mudar tanto. Rio alto, falo alto, faço amizade até com lagarto.

Mas intercalo as porcinices com o chororô, muitas vezes no meio da mesma frase. Começo a frase rindo, termino ela chorando.  As pessoas simplesmente não sabem como reagir, ô judiação.

Não, e vejam:  com todo esse drama hormono-gravídico, minhas vizinhas ainda me resolvem fazer um churrasco de despedida surpresa? Isso lá é coisa que se faça a uma grávida?

Minhas vizinhas - uma americana, uma australiana, uma sul africana e uma inglesa - são todas mães de amigos do filhote, e organizaram tudo secretamente.

Umas fofoletes - até faixa de despedida com nosso nome a gente ganhou, achei bem Zeca Pagodinho.

Daí pensei "não vou chorar, não vou chorar, nada a ver chorar."

E segurei o choro até o finalzinho do churrasco.

Foi quando eu derrubei uma linguiça no chão.

E o choro veio alto, veio compulsivo.

E da linguiça eu olhei pro filhote, que brincava bem feliz, com seus melhores amigos da vida.

E  me dei conta que ia separá-lo deles, como já o havia separado da família.

E o choro veio intermitente e forte e visceral.

E olhando pro meu filho eu pensei nas crianças do mundo inteiro.

E na fome.

E na miséria.

E na Africa.

E do continente africano eu pensei nos leões, que me remeteram aos jacarés, que me levaram aos lagartos, que me fizeram pensar na casa nova e na maravilha de vida que nos esperava!

Dali pra começar a rir alto levou um segundo. Então eu ria, gargalhava, dançava, gesticulava!

Tudo isso apenas um minuto depois de ter chorado a linguiça derrubada.

Gente?

A bipolaridade gravídica. Só quem me entende é quem já gerou vida no ventre.

***

Não vou mentir pra vocês: os dois primeiros dias na casa nova foram infernais. Não se achava NADA e me doíam as cadeiras todas, a cabeça, o estômago. Pensei que fosse parir ali mesmo, em meio às caixas.

"Veja a seguir, um parto domiciliar diferente, entre as caixas de mudança", Ana Paula Padrão faz a chamada. Um oferecimento:  Mudanças Granero - Pensou mudança, Pensou Granero.

Digam aí se não ganhava horário nobre?

Mas no final deu tudo certo. Estamos dentro da casa, pertences parcialmente desempacotados e o relógio apontando 37 semanas do segundo tempo.

Noah trocou de escola (mais essa!) mas continua rodeado de montessorices e muita, mas muito alegria. Aliás, tô pra conhecer guri mais alegre, guri mais boa praça, guri mais de bem com a vida, Jesus.

Eu e o pai somos legaizinhos e tals mas, caraca, o rapaz me saiu todo trabalhado na endorfina, no amor próprio e na alegria de viver, deus conserve.

[caption id="attachment_2172" align="aligncenter" width="720" caption="O cara é boa praça, minha gente"][/caption]

 

Vou parar por aqui, cumadinhas lindas, torçam pra que bebéia espere até que suas roupitas sejam lavadas?

Quem aí diz que nasce com 38 semanas? E com 39? E qual a pessimista que acha que minha boa hora só acontece às 42? Façam suas apostas, colegas! E vamo que vamo, que agora é ao vivo!

Ah! E no próximo post eu conto do terceiro dia de casa, quando dancei "Here comes the sun" com filhote e um velhinho de uns 100 anos, que veio aqui consertar um cano estourado.

Há de ter sido uma das cenas mais surreais que este país já viu acontecer.

Vejam: um velho, uma criança e uma grávida - eles podiam estar  se aproveitando do status de incapazes e pegando o seu lugar no metrô. Mas não, estavam ali dançando Beatles, juntos e felizes, no quintal da casa nova.

A vida é bonita, gente. Bora ser feliz! E se puderem me mandar uma energia bonita e um beijo de boa hora (adoro!), agradeço eternamente.

Alá a pessoa chorando de novo.

Som na caixa, DJ!

Here Comes The Sun