sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

o buraco nos fundilhos e o chiclete que deixava a boca azul

Aconteceu hoje de manhã.

Eu estava na aula de yoga, aquela que promete endurecer o meu espírito e ampliar as minhas nádegas, digo,  ampliar o espírito e me endurecer as nádegas.

Estica dali, espicha de lá e vamos à posição facing dog. Na posição facing dog o sujeito encosta as mãos no chão e eleva o que há de menos elevado em direção aos céus.

Assim ó:

[caption id="attachment_1961" align="aligncenter" width="410" caption="esta não sou eu, claro"][/caption]

Atrás de mim um espelho.

Na minha frente e dos dois lados: gente, gente, muita gente, sala lotada.

Todo mundo na posição da foto, de cabeça pra baixo, se olhando no espelho por entre as pernas. No espelho um bocado de bunda e bochechas vermelhas - é o sangue descendo pra cabeça - já dizia minha mãe.

Mas hoje, colegas, hoje o deus namastê ilê-aê tinha outros planos pra mim.

Cumadis. Tô na posição ali da foto, dou aquela mirada no espelho por entre as pernas e me deparo com um FURO. Não um furinho meia boca, não senhoras. Um furo com dimensões continentais. Tá bom, continentais é exagero meu - pense Amapá. Não, não. Pense Roraima, que é mais robustinha.

Nessas horas eu fico pensando. Com tanto dia pra pessoa vestir uma calcinha rosa choque embaixo da calça preta, porque senhor, porque, porque que esse dia tem que ser BEM o dia em que me aparece um rombo nos fundilhos da calça?

Acompanhe o desespero. Imagine um espelho longo, longuíssimo. Uma sala lotada, todo mundo na tal da posição bochecha rubro. O que se vê são bundas em série, devidamente revestidas em calças escuras e dignidade. E em meio àquela imensidão toda de bundas pretas, cinzas e dignas vê-se um ROMBO. Um rombo através do qual vê-se uma calçola nem tão nova assim, de cor rosa choque.

A cena era tão humilhante, que minha vontade era fechar os olhos e me tele-transportar pro Amapá. Não, pra Roraima, que é mais longe um pouquinho.

Mas o pior ainda está por vir, cumadis.

Percebam: a posição facing dog ou bochecha invertida é tipo o CORINGA da Yoga. Uma posição que se repete ad eternum, entre uma posição e outra. Sempre. Ela une as posições como se fosse uma ponte, um cupido, um facebook.

E a cada nova erguida de fundilhos, uma nova humilhação.

Não o tipo de humilhação que começa e termina. E sim um vexame que se estende por uma hora, num indo e vindo infinito de fundilhos expostos.

Naquilo que a ciência hoje conhece como humilhação prolongada.

***

Todo mundo sabe que os momentos vexatórios ou humilhantes da vida se dividem em dois tipos: instantâneos e prolongados.

A humilhação instantânea começa e termina e, embora dolorida, ela é administrável.

Você certamente sobreviveu a algumas humilhações instantâneas nessa vida, principalmente durante a adolescência.

São consideradas humilhações instantâneas:

- Ter levado aquele tombo em frente à cantina do colégio, bem na hora do recreio.

- O dia em que sua menstruação passou e quem te avisou foi a garota mais maldosa da sua classe, no maior estilo gritante "EI! HAHAHAHA. PASSOU! OLHA, GENTE, PASSOU! HAHAHAHA"

- Ter tropeçado na frente do seu primeiro namoradinho.

- Ter sido buscada naquele bailinho pelo seu pai, vestindo pijamas.

A humilhação prolongada, ao contrário, faz com que sua reputação entre em modo quase irrecuperável. De maneira que mudanças de nome e país são altamente recomendadas. São humilhações prolongadas:

- Ter levado aquele tombo em frente à cantina do colégio, bem na hora do recreio. Por conta do tombo você rasga a calça, bem entre uma nádega e outra. E o seu moletom, que poderia ser amarrado na cintura, escondendo Roraima, ficou dentro da sala de aula. Que fica no 3o. andar do prédio W, do outro lado do inferno.

- Ter sido buscada naquela festa bailinho pelo seu pai, vestindo pijamas. E seu pai desce do carro. E começa a dançar. No maior estilo volare, o o, cantare o o o o.

- O caso da menina que foi mandada pra escola vestida de árvore porque aquele era o dia da árvore. Mas aquele não era, de fato, o dia da árvore. (Leia sobre a coitadinha aqui.)

***

Eu pensei em sair da aula, mas ia ser pior. Eu teria que passar por um caminho loooongo, enfestado de bochechas e bundas dignas, eu e minha Roraima rosa choque.

Fiquei foi ali mesmo, tentando abstrair.

Eu respirava e pensava "eleve-se! abstraia! desconecte-se das merdas mundanas!"

E, do nada, me veio à cabeça algo inusitado: o chiclete que deixava a boca azul.

E eu fiquei pensando como raios a nossa geração sobreviveu à humilhação que eram as sacanagens vexatórias.

Nego te dava chiclete que te deixava a boca azul.

Depois nego te dava uma caixinha prateada com uma foto de mulher pelada, você abria e tomava um mega choque.

Ovo na cabeça.

Neocid.

Respirei fundo, tive orgulho da sobrevivente que há em mim, e elevei suavemente os fundilhos.

(o que, desconfio, não tenha sido tão suavemente assim, posto que nesse momento o bagulho fez crrrrr e o rombo ficou do tamanho do estado do Amazonas).

 

foto da moça magra e sem furo nas calçolas daqui.