terça-feira, 28 de junho de 2011

roupa suja se lava em casa

 

 

Ah, férias. Que descanso, que paz, que plenitude pra alma calejada da pessoa.

Só se for pessoa sem filho.

Caraca, eu não vou mentir pra vocês: tô só o pó da Johnson & Johnson, cumadis.

Vamos ao balanço das férias:

Noah volta pra Cingapura mais falante, mais gordinho, mais engraçado, todo trabalhado na falta de rotina e deveras feliz.

E por trás desta faceirice toda, claro, jaz uma mãe exausta e inevitavelmente acima do peso realizada.

***

Depois do inverninho marromenos do Rio de Janeiro, descemos ao sul do Brasil, onde fez frio de gente grande. E eu, a duríssimas penas, exerci  maternidade no frio. Que me perdoem as mães do calor mas aqui vai a verdade, sem cortes: ser mãe no calor é muuuuuito do café com leite, senhoras.

Se você quiser fazer o teste mega-plus-star da maternidade, seja uma mãe de frio.

Sério. Ao observar uma mãe do frio em ação eu me sinto uma farsa, uma impostora, um José Sarney, com minhas roupinhas leves e banhos longos e destemidos.

Mães do frio agasalham, aquecem, desmelecam, cobrem, desfebram. Servem bebidas aquecidas, requentam, "o chão tá gelado!", "o vento dá otite!", "cadê a toca desse menino?" "e essa roupa que não seca!"

O inverninho do Rio dá até praia. Em Cingapura não tem inverno. Isso faz de mim uma sub-classe de mãe, uma mãe do calor, mulher de vida fácil. Fica aqui minha modesta homenagem a todas as mães do frio. Vocês são fodonas, recebam meu forte abraço impostor.

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Agora: mais fodona que mãe do frio é  mãe do frio sem máquina de secar roupa. Porque, gente, o sul deste país é tão frio e tão incrivelmente húmido que você pendura a roupa e, no dia seguinte, esta mesma roupa consegue estar ainda mais molhada do que quando você as estendeu. Fenômeno ou não é?
***

Falando em roupa que não seca, passei por uma situação, em casa de "parente", onde a máquina de lavar roupa deu pau. E deu pau justamente quando todas as vestimentas de Noah deram P.T., carimbadas de sujeira, grama, dejetos caninos e todos os demais corpos combatíveis pelos anticorpos que meu leite materno fez, outrora, a delicadeza de produzir.

Pessoa de fé que sou, me botei a lavar as roupas do pequeno a mão. A mão, cumadis, a mão. Como se fazia há cerca de dez mil anos atrás. Munida de sabão, bacia e água friiiia, sentei ao sol, coloquei o pequeno pra testemunhar e cantarolei o melô do "ensaboa, mulata, ensaboa", pra modo de manter todo um clima popular.

E sabem que, por um momento, eu me senti tão..tão...tão autêntica e profundamente conectada àquela bacia com água. Ah, sei lá. Me vi tão...tão...mamífera e empoderada, primitiva e feliz.

(mas daí minha mão ficou tão...tão..tão desgraçadamente congelada e dolorida, que eu joguei a porra da água no ralo, corri pra lavanderia mais próxima e jurei amor eterno à amiga brastemp, aquela empoderada).
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E falando em empoderada, a frase mais fofa das  férias inteiras veio de uma senhora de 87 anos, amiga da minha avó:

"Mas minha filha, eu pari SETE dentro da minha própria casa e ninguém nunca me convidou pra ser capa de revista nenhuma."

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Outra coisa. Eu não sei se é só comigo que isso acontece. Por acaso a mãe de vocês também tem peninha porque o netinho dela não come tanta manteiga, tanta fritura ou  tanto chocolate quanto ela gostaria que ele comesse? Porque a minha mãe morre de pena do rapaz.

Outro dia ouvi uma conversa dela com a vizinha, nos seguintes termos:

"Nem a bisnaguinha, sabe, aquela bisnaguinha? Nem essa ela dá pro coitadinho. Tão bonitinho ele, cê precisa ver, daquele tamaninho, comendo aquele bocado de grão no pão integral. Aquele com uns 12 grãos, sabe qual é? Poxa, é grão pra caramba, ele é tão pequenininho, coitadinho!"
***

Falando em vizinha, Noah é o típico objeto de bullying de fofoca vizinheira, a começar:

 
- Ele é mais cabeludo do que gostariam (não sei o que é pior, quando confundem ele com menina ou com argentino);
- Ele tem uma cozinha de madeira no quarto dele, apesar de ser "macho" (juro que ouvi isso);
- Ele mora em um país onde é proibido mascar chiclete "Ah, Roberta, tão desenvolvido e tão rico e o pessoal proíbe um chicletinho?!" (juro que ouvi isso II);
- Ele tem nome judeu ("Nossa, judeu com cara de argentino!");
- Ele não é batizado ("Mas vocês planejam deixá-lo assim, pagãozinho mesmo?")

[caption id="attachment_1608" align="aligncenter" width="1024" caption="ele é cabeludo e come pão integral: o que que os vizinhos vão dizer?"][/caption]

URGENTE - ACIDENTE EM ESCADA ROLANTE

Minha gente, hoje o assunto é sério e urgente. Tão urgente que eu resolvi interromper meus empacotamentos e despedidas pra vir aqui assuntar com vocês.

Ontem levei o maior susto desde que Noah nasceu.

Retifico: ontem levei o maior susto da minha vida.

Estávamos eu, filhote e minha mãe na escada rolante de um shopping qualquer quando, do nada, ouço um grito estridente de crianca, seguido da parada imediata da escada rolante.

E para meu desespero o grito vinha do meu próprio filho.

Nem que eu viva 200 anos vou conseguir esquecer a cena:  lá está Noah, aos prantos, com metade do pé preso entre a escada e a lateral da escada rolante, a escada paralisada (graças! aleluia!) e a multidão em pânico, gritando "ai meu deus, ai meu deus, o pé do menino ficou preso na escada rolante, alguém ajuda!".

Eu e minha mãe tentávamos, sem êxito, puxar o sapato pra fora dali. Noah gritava, eu urrava, ao imaginar que meu filho pudesse estar com o pé esmagado naquele lugar. E o croc não saía dali, totalmente preso entre a escada e a lateral.

Impotente, eu olho pra minha mãe e viro filha. E lanço meu olhar de desespero pra quem me gerou  e me pariu. E minha mãe, imediatamente, puxa com forca a tira de trás do croc e tira o pé do meu filho de lá. Minha mãe sempre teve presença de espírito. Ela já roubou a faca da mão de um ladrão, mas isso eu conto em outro post.

Foi como se eu tivesse nascido de novo. Meu filho estava bem, o pé incrivelmente ileso. Ele sentou no meu colo e ali permanecemos, respirando um ao outro.

A galera trouxe água, acudiu, ajudou, rezou. "Que sorte, meu deus, que sorte"

***

Acho que se o acidente tivesse ocorrido em era pré-internet ela viraria apenas um "descuido" da mãe. Mas eu sabia que a culpa não era minha - estava com meu filho grudado em min e de mãos dadas. Onde foi que eu errei?

Foi então que eu comecei a pesquisar sobre "crocs and escalators (escada rolante) e encontrei isso:



E isso:



E isso:

"Mulher processa o fabricante dos sapatos Crocs alegando que os calçados foram os responsáveis pelo acidente envolvendo sua filha na escada rolante, que resultou em ferimentos e dois dedos quebrados". (Tradução livre, daqui).



E esse artigo da ABC News sobre os acidentes em escadas rolantes, onde as vítimas usavam Crocs.

E mais isso:

"Japão determina que fabricante mude o design dos Crocs depois de ralatar 65 reclamações sobre crocs ficarem presos em escadas rolantes , no período de 5 meses. A mairoia dos casos envolve crianças pequenas" (tradução livre, daqui )

E isso:

"O metrô da cidade de Washington até colocou avisos na escada rolante a respeito (...)". (t.l., daqui)

***

E eu poderia ir mais afundo sobre os casos de crianças que perderam um ou mais dedos em acidentes idênticos ao que meu filho sofreu. Mas acho que já deu pra entender a importância do assunto, não é verdade?

Gente, esta não é uma campanha contra as sandálias Crocs, as quais Noah continua usando. Até porque não sou perita e não sou gabaritada a dizer que esse calçado pode ocasionar mais acidentes em escadas rolantes que outro. Será que se ele estivesse de sandálias de dedos, aquelas que não soltam as tiras, o acidente não teria acontecido? Leviano sair afirmando isso, né gente?

Em sua defesa o fabricante das sandálias Crocs declarou que:

"Nós levamos a segurança nas escadas rolantes muito a sério. Para se ter segurança no uso de escadas rolantes e esteiras é importante prestar atenção, especialmente ao entrar ou sair delas. Também é importante que os pais ajudem as crianças a andar de escada rolante de maneira segura" (tradução livre)

Ah, isso não, seu fabricante de Crocs. Eu tomei todos os cuidados e, ainda assim, escapei de ter a minha vida e a de meu filho mudada pra sempre.

Não sei de quem é a culpa e não vim aqui pra isso.

Eu estava segurando a mão do meu filho (e todas as mães cujos relatos li, dizem o mesmo). E ainda assim enfrentamos momentos traumatizantes, amenizados pelo fato de que a escada rolante parou (graças! aleluia!).

Acho que seria correto dizer que a única maneira segura de uma criança andar de escada rolante é permanecendo no meio do degrau, vocês concordam?

Enfim. Eu tinha que vir aqui dividir isso com vocês e, quem sabe evitar que outra criança (e outra mãe, e outra avó) passem por isso.

De agora em diante, meu filho só no meio do degrau.

Me dá um abraço? :(

ps: além de tremendo (ainda) estou me sentindo uma mega energúmena - aparentemente (e pelo que estou lendo) to-das-as-mães-do-mun-do sabem que não se pode usar crocs nas escadas rolantes. Humpf.

ps2: que nem a história dos tictacs no nariz, lembram? depois que aconteceu com a gente, fiquei sabendo que, tipo, o-mun-do-to-do sabe que crianças enfiam tic tac no nariz. Humpf2 (para reler o drama dos tic tacs, clique aqui)

sábado, 25 de junho de 2011

Seguimos de ferias.

Depois do inverninho marromenos do rio de janeiro, descemos o brasil, onde faz frio de gente grande. E eu venho, a durissimas penas, exercendo a maternidade no frio. Que me perdoem as maes do calor vez concluo que ser mae no calor eh muito cafe com leite, cumadis.

Se vc quiser fazer o teste mega plus star da maternidade, seja uma mae de inverno.

Ao observar uma mae do frio em acao eu hme sinto uma farsa, uma impostora, com minhas roupinhas leves e banhos longos e destemidos.

Maes do frio agasalham, aquecem, desmelecam, cobrem, desfebram. Servem bebidas aquecidas, requentam, o chao ta gelado, o vento da otite, cade a toca desse menino e essa roupa que nao seca.

O inverninho do rio da ate praia. Em cingapura nao tem inverno. Isso me torna uma sub-classe de mae, uma mae do calor, mulher de vida facil. Fica aqui minha homenagem a todas as maes do frio. Vcs sao fodas, um forte abraco.

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Mais fodona que mae do frio eh uma mae do frio sem maquina de secar roupa. Aqui no sul e tao frio e tao desgracadamente humido que vc pendura a roupa e, ao ir checar, no outro dia, a roupa esta mais molhada do que qundo voce as estendeu. Um fenomeno.

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Falando em roupa que nao seca, passei por uma situacao onde a maquina de lavar roupa deu pau. Deu pau justamente quando todas as vestimentas do noah estavam em oerda total, carimbadas de sujeira, grama, dejetos caninos e todos os demais anticorpos que meu leite materno caridosamente produziu. Pessoa de fe que sou, fui lavar as roupas do pequeno a mao. A mao, entenderam cumadis, a mao. Como se fazia a mil anos atras. 
Munida de sabao, bacia e agua friiiia, sentei no sol, ao lado do pequeno e cantarolei o  "ensaboa, mulata, ensaboa, ensaboa, to ensaboando"
Por um momento me senti tao..tao...tao autentica e  conectada aquela bacia com aguaTao...tao...mamifera e empoderada e primitiva e feliz!
(mas dai minha mao ficou tao...tao congelada e dolorida e perCa total, que eu joguei a porra da agua congelada no ralo, fiz um culto a brastemp e corri na lavanderia mais proxima)
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E esse negocio de ser mamifera empodeirada eh bonito demais, ne nao cumadis? Eu comentei com uma amiga da minha avo sobre todo esse movimento bonito do parto humanizado  e tal e ela me respondeu, ipsis literis
" pois eu pari 7 em casa e ninguem nunca me convidou pra ser capa de revista"
E continuou:
"naqueles tempos a gente sentia a dor do parto e ia correndo deixar tudo em ordem: dava trato pras vacas, tirava leite, arrumava a casa, dava banho nas criancas, pra so depois de tudo isso chamar a parteira. "

***
Eu me considero bicho fortificado pela vida. Como ja contei aqui, encarei muita enchente e nessa de "lavou, ta novo" os sofas, objetos e demais porcarias iam certamente parar no meu sistema

quinta-feira, 9 de junho de 2011

foi com medo de avião, que eu descobri que você não tem premonição

 

E eis que após intermináveis esperas aeroportuárias, 26 horas de vôo e uma escala de alguns dias em Paris, estamos de férias no Brasil.

Noah desembarcou no Rio de Janeiro em um misto de surpresa e felicidade, reconheceu quase tudo e pareceu entender que a gente sai dos lugares, mas os lugares continuam a existir, mesmo sem a gente lá.

Confunde português com inglês, inglês com francês e conquista as velhinhas de Copacabana com seus hellos, goodbyes e good mornings, distribuídos ao maior estilo candidato a vereador.

Depois de alguns dias no Rio ele já estava totalmente reen-cario-cado, comendo biscoito Globo e dizendo que "brincou à beça" .

Porque você pode tirar a pessoa do Rio de Janeiro. Mas não pode tirar o Rio da pessoa.

[caption id="attachment_1567" align="aligncenter" width="1024" caption="Em dois dias o rapaz já parecia o Nuno Leal Maia"][/caption]

 

***

Eu tenho medo de voar.

Vôo porque preciso - de que outra forma poderia me aventurar por esse mundão cheio de oceano? Mas tenho medo sim, rezo terço sim e checo todas as saídas de emergência. Fico atenta aos sinais da vida e já cancelei vôo porque sonhei que o Roberto Carlos me pedia pra não voar naquele dia.

Então eis que ontem fizemos um vôo nacional, só eu e o pequeno.

Devidamente sentados, Noah levanta e distribui sorrisos pro pessoal de trás, da frente, dos lados.

- Esse avião é feio, diz ele.

A mulherada acha fofo:

- Ai, que bonitinho. Ele acha o avião feio, coisa mais linda.

- Esse avião é velho.

- O zente, que coisa mais fofa da tia, o avião é velho, que gracinha.

E então vem a profecia:

- Esse avião vai cair.

Tá? Pense numa pessoa apavorada.

O clima no avião ficou meio tenso, a aeromoça pediu pra ele sentar e as moças imediatamente fecharam a cara e pararam de achar ele fofo.

E eu pergunto a você, cara colega.

Diante de tal situação, você:

a. Pega filho e mochila e se pica daquele avião;

b. Fecha os olhos e repete o mantra "aviões não caem, crianças são loucas, aviões não caem, crianças têm TOC".

c. Ou pensa "Pãtz, essa porra vai cair e eu não tenho nem tempo pra escrever um post, pra modo de me exibir sobre essa coisa chique do meu filho ter poderes de premonição. Merda."

[caption id="attachment_1575" align="aligncenter" width="612" caption="se você está lendo esse post é porque eu não tenho poderes de premonição"][/caption]

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Das mentiras que contamos às mães de primeira viagem *

- Com 3 meses melhora.

- Com 6 meses melhora.

- Com 12 meses melhora.

- Com 2 anos melhora.

- Logo logo ele vai dormir melhor.

- Logo logo ela vai comer melhor.

- Ah, você vai voltar a trabalhar quando o bebê estiver com 6 meses? Que ótimo, você vai tirar de letra!

- Ah, você vai largar o emprego e ficar com o bebê o dia inteiro? Que ótimo, você vai tirar de letra!

- Como? Seu bebê tem refluxo? Estatísticas mostram que bebês com refluxo tornam-se crianças super comportadas. Comemore!

- Como? Seu bebê troca o dia pela noite? Estatísticas comprovam que bebês vampiros tornam-se escritores ilustres/pianistas célebres/(preencha com a mentira apropriada).

- O nosso organismo acostuma a dormir somente cinco horas por noite, você vai ver.

- A vida muda bem pouco com a chegada do bebê, é só saber administrar.

 

(*) título inspirado no "It gets easier...and other lies we tell new mothers" by Claudine Wolk.