terça-feira, 12 de abril de 2011

malandro que é malandro... já nasce falando inglês

Quando eu era pequena, eu não fui à Disney.

Ir à Disney nos anos 80 era tão caro, mas tão caro, que eram raríssimos os casos de crianças que iam passar férias por lá. Porque não bastava seu pai ter dinheiro: ele tinha que ter dinheiro E ser bacana o suficiente pra acreditar que havia algum sentido em queimar um Corcel II inteirinho só pra filha tirar foto do lado de um rato orelhudo, de nome Mickey Mouse.

Para ir à Disney uma vez por ano, seu pai tinha que ser rico e legal. Pra ir pra Disney 2 ou 3 vezes por ano, como fazia a menina Alessandra, seu pai tinha que ser o Pateta em pessoa.

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Alessandra era menina viajada e ia pra Disney como quem ia pra Santos. De suas viagens ao "estrangeiro", Alessandra trazia os brinquedos mais incríveis que os anos 80 viram passar.

Uma das muambas mais concorridas era um tal de um estojo, cheio de botões e compartimentos. Aquele troço fazia tanto, mas tanto sucesso entre as crianças, que Alessandra tinha que organizar uma FILA, durante o intervalo, pra que todos tivessem a chance de apertar UM botão do estojo gringo.

[caption id="attachment_1472" align="aligncenter" width="500" caption=""quem quiser apertar um botão, faça fila aqui!""][/caption]

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Sempre que retornava da Disney, Alessandra voltava falando inglês. Era o pessoal tentar furar a fila estojal, que a menina gritava STOP, PEOPLE! Daí o sujeito terminava de apertar o botão (e só podia apertar UM botão), e Alessandra gritava NEXT!

E, ai, como eu achava chique a pessoa falar inglês.

Nessa idade, eu pensava que nunca, nunquinha nessa vida de meu deus, que eu ia aprender a falar inglês. E eu tinha meus motivos pra acreditar que meu destino seria morrer falando somente português, a saber:

1. Eu não viajava pra Disney. Aliás, eu só viajava mesmo era pra casa da minha avó, que ficava a uns 30 km da minha casa. Imagina, 30 quilômetros! Alessandra sempre dizia que a Disney ficava a milhares de milhões de quilômetros da escola e que por isso ela sempre dormia no avião. E eu fechava meus olhos e ficava imaginando que aquilo sim era uma viagem legal: uma viagem tão longa, mas tão longa, que a pessoa chegava a ter sono, dormia, comia (comida aviãozenta), fazia xixi e aprendia inglês, tudo sem sair do avião! Bem diferente de viajar no chiqueirinho da Caravan, comendo biscoito de polvilho e parando no Texaco pra fazer xixi.

2. Eu não tinha nem mãe nem pai gringo, como era o caso da Mariana. A Mariana era a melhor amiga da Alessandra, claro. As duas zanzavam de mãos dadas pra lá e pra cá, best friends de-tu-do, como elas diziam. A Mariana chamava o pai gringo dela de DAD. E se havia alguma coisa que eu realmente achava elegante no mundo, era a pessoa falar inglês com o próprio pai.

3. Minhas aulas de inglês na escola nunca seriam suficientes pra que eu aprendesse inglês. Não que o professor fosse ruim, acho até que ele era esforçado. O problema é que eu sofro de um caso crônico de dispersão, geralmente desencadeada por fatores externos, que estão além do meu controle. No caso do professor, o problema era a porra do cabelo dele, que era formado por  vazios carecas nas laterais, cachinhos rebeldes na parte de trás e  três pontas arrepiadas, que faziam sombra na parede. A sombra do cabelo do professor ia se desfigurando, formando os mais bizarros desenhos. E eu tentava me concentrar, "concentra, burra, concentra". Mas no fundo eu sabia que nunca que eu ia aprender todo um idioma estrangeiro, enquanto distraída por figuras psicodélicas na parede, advindas do cabelo de um professor, que era versão cinquentona do Cebolinha.

Eu precisava de um plano.

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Um dia eu encontrei um livro na Biblioteca da escola, todinho escrito em inglês.

Ele tinha um cachorro na capa e era daqueles livros que eu considerava inteligentes, posto que continha frases bem longas e pouquíssimas figurinhas. A ponto de eu realmente não ter idéia se o cachorro era feliz, triste, ou se era um gato travestido de cachorro.

Agarrei o livro, preenchi a ficha da biblioteca e levei o bichinho comigo.

"Pronto. Achei um jeito de aprender inglês. Me aguarde, Alessandra".

O que eu não sabia, até então, era que andar com um livro em inglês nas mãos, trazia algo infinitamente mais legal do que aprender inglês em si. Andar com um livro escrito em inglês dava a falsa impressão de que você, de fato, já sabia inglês.

Coleguinhas, professoras, porteiro, moça da cantina - o povo todo olhava, via a palavra DOG na capa e sorria, impressionado.

Se eu quisesse tirar onda mesmo era só sentar lá fora, durante o recreio, levar o livro à altura do peito, abri-lo e, a cada página,  soltar expressões variadas  (risos, surpresa, tristeza, risos.)

E quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?

***

Até que um dia eu resolvo fazer o ritual dentro do ônibus escolar: abre o livro, vira a página , expressões variadas (riso, surpresa, tristeza, risos).

- Como se você estivesse entendendo alguma coisa, hahahahhaaha.

Viro pra trás e lá estão elas, as duas representantes oficiais da língua inglesa no mundo, propagadoras da cultura anglo-saxônica no hemisfério sul, temíveis perseguidoras das farsantes idiomáticas, como eu. Sim, em unha e carne, Alessandra e Mariana.

- Aposto que você não entende uma palavra que está escrita aí, Roberta - diz Mariana.

- E se não entende, tava rindo do que, hein? - pergunta Alessandra.

Então eu levanto e faço aquilo que toda criança corajosa faria,  diante de uma situação DEMOLIDORA de reputação feito essa: pego livro, mochila e a pouca dignidade que me resta, me dirijo até a porta do ônibus e, sem olhar pra trás, desço4 pontos antes do meu.

Lá de longe, ainda dava pra escutar o parzinho gritando BYE BYE!! pela janela do busão.

***

Noah está se saindo cada vez melhor no inglês e, segundo a professora, age como se entendesse tudo o que lhe é falado.

Mas é claro que o que ele entende são coisas cotidianas, da escola, do playground. Eu não espero que ele entenda um noticiário ou uma conversa entre dois adultos.

Por exemplo: no elevador do nosso prédio. Quase sempre rola um bate-papo informal com os vizinhos. E a conversinha de elevador é obviamente em inglês, o que impossibilita que Noah entenda muita coisa.

Considerando que ele é o filho da mãe dele, qual vocês acham que seria a reação do rapaz, por não entender patavinas do que está sendo falado.

Ele:

a. Chora. Esperneia. Como é triste não entender o que esse povo fala! E, deprimido, se joga no chão do elevador.

b. Fica puto da vida dele, telefona pro Conselho Tutelar e diz que tem o direito de saber sobre o que conversam os adultos, principalmente dentro de um elevador. Exige um tradutor e um advogado bilíngue.

c. Não entende porra nenhuma, mas fica mega atento à cada reação dos participantes da conversa: se os adultos riem, ele também ri, só que ri alto, exagerado, jogando a cabeça pra trás e batendo palma, feito foca.  Se os participantes da conversa, ao contrário,  conversam de maneira séria e fazem cara de espanto, ele imita, abre os olhos arregaladíssimos e ainda solta um OH MY GOD.


[caption id="attachment_1482" align="aligncenter" width="500" caption="o palhacinho do elevador, dizem os vizinhos"][/caption]



[caption id="attachment_1484" align="aligncenter" width="500" caption="e quem precisa de inglês, quando se nasce com tamanha cara de pau?"][/caption]

*foto do estojo chei'de guéri-guéri tirada daqui

sábado, 9 de abril de 2011

mãe real

Sou pobre, moro longe, mas também quero participar dessa blogagem coletiva da Maternidade Real, posso?

O post veio meio atrasado, mas não dava pra não participar.

Até porque esse é um assunto que nos toca a todas, um desabafo coletivo, uma confissão pós-caipirinha, né verdade?

Então aqui vai uma lista de algumas das presepadas que fazem de mim uma mãe irresponsável real:

Realidade Number 1: Fui submetida a uma cesariana e a culpa não foi do médico:

Depois de 41 semanas e 5 dias de prenhez, também conhecidas como quase-quarenta-e-duas-semanas-de-tortura-gestação fui EU que virei pro médico e pedi pelamordosmeusfilhinho que ele me induzisse.

- Doutor, se ele não nascer até amanhã, quero induzir.

- Mas, Roberta, a indução pode acabar resultando em uma cesariana, cê tá preparada pra isso? Não é melhor esperar até as 42 semanas?

E  então eu fechei os olhos e fiquei pensando no quanto havia me preparado pro sonhado parto natural.

Eu sabia que parir às 42 semanas não era, em si, um problema. Mas eu simplesmente não AGUENTAVA mais estar grávida. Não suportava mais o peso, o calor e a idéia de que minha mãe tinha que ir embora dentro de 4 dias. Minha mãe veio me visitar achando que o neto nasceria lá pela 40a. semana, o que, obviamente, não aconteceu. Agora ela tinha que ir embora e NADA do neto nascer.

- Cesária, é doutor?

- Isso mesmo, a indução pode desencadear um parto vaginal, mas também pode acabar resultando em uma cesariana. E daí, qual a sua decisão?

Eu nem precisei mais pensar: a resposta veio do fundo do peito, e veio mais ou menos assim:

- Com a minha faca ou com a sua?

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Realidade Number 2:  Eu me arrependo de ter amamentado exclusivamente por 6 meses

Ok, o melhor é que a exclusividade da amamentação perdure por seis meses. Foi isso o que me disseram, foi isso o que eu fiz. E, ai jesus, como eu me arrependo.

Eu tenho pra mim que a OMS dita essas regras, baseada nas necessidades fisiológicas dos bebês, EM GERAL, tô errada? E em geral, um bebê de 6 meses ainda se movimenta pouco.

Mas o que dizer de um bebê que começou a se arrastar pela casa com 4 meses e a engatinhar, a considerável velocidade, com 5 meses? Ele evidentemente gasta muito, mas muito mais calorias do que um bebê que fica parado, concorda comigo?

E ele precisa se alimentar pra poder suprir essa energia perdida e continuar crescendo. Resultado: um bebê grudado no peito da mãe, com sede, com fome, uma mãe estressada, chorosa e, graças ao bom deus, seca.

Sim, o bebê super sônico secou os meus 22 quilos, em pouquíssimo tempo.

(o que me faz repensar este parágrafo todo, mudar de idéia e dizer que já não me arrependo, tanto assim, da tal exclusividade)

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Realidade Number 3 :

- Deu 7 meses ele experimentou leite artificial, concomitante à amamentação (que durou 12 meses e 2 dias.)

- Aos 12 meses ele provou chocolate, no aniversário de 1 ano

- Aos 14 meses foi vítima de uma presepada sem precedentes: a louca da mãe dele passou a esconder uma gema de ovo cozida no meio da banana amassada do rapaz,todas as manhãs, no afã de promover a ingestão forçada de proteínas. Resultado: ele ficou confuso com a mistura de sabores e criou aversão a banana, que costuma ser a fruta mais badalada da pequenelândia. O Conselho Tutelar não quis se manifestar a respeito.

Realidade Number 4:

Eu abri a porta do quarto, flagrei meu filho mergulhado na merda e decidi que era mais engraçado tirar uma foto dele cagado do que promover o imediato banho da criatura. O Conselho Tutelar não quis se manifestar a respeito II.

[caption id="attachment_632" align="aligncenter" width="500" caption="já te limpo, filho, deixa só eu tirar umas 150 fotos antes"][/caption]

Realidade Number 5:

Eu já me senti culpada lendo um post no Blog Mamíferas. Alguns textos são bem escritos, elucidativos e ensejam reflexão, principalmente os que abordam a importância da informação pré-parto e pós-nascimento.

Outros, no entanto, são uma viagem egocêntrica rumo ao parto orgásmico da autora. Um culto ao "faça o que eu faço ou morra na masmorra".

Funciona mais ou menos assim:

Eu não uso mochilinha (aquela, de segurar bebês fujões)

Se você usar, vou te chamar de mãe preguiçosa.

Preguiçosa. Tá?

Preciso explicar que, apesar de conter artigos vez ou outra interessantes, trata-se em geral, de um desfavor a mulher?

Bad trip, gatas, parei com as drogas.

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Por fim, realidade number 6:

Eu esqueci as fraldas do bebê. E não foi pra uma voltinha básica, um rolê até a pracinha. No no no. Eu esqueci as fraldas antes de entrar no avião, um vôo de 12 horas e ZERO fralda a bordo. Lembram?