quinta-feira, 18 de novembro de 2010

comentários maldosos (e o dia em que gisele me chamou de invejosa)

Eu nunca colecionei inimigos.

Não sei o que acontece, mas inimigos profissionais - aqueles encrenqueiros que zanzam por aí em busca de desafetos - tendem a me ignorar por completo e buscar treta em outro quintal.

Na blogosfera é igual  - dificilmente recebo desaforos gratuitos de leitores galos de briga. Até porque, cá pra nós, esse não é exatamente um blog polêmico, vai.  Eu não levanto teorias, não mostro a bunda em rede nacional (é que ninguém quer ver!)  e não tenho a pretensão de ensinar ninguém a ser mãe.

Dito isto, vez ou outra recebo uns comentários que pelamor, eu não mereço.

Já fui chamada de pessoa amargurada, veja você. Já fui acusada de passar a impressão equivocada de que a maternidade seria fácil e engraçada. E, ao contrário, alguém já insinuou que eu demonizava a maternidade de tal maneira,  que fazia com que mulheres sem filhos perdessem a vontade de tê-los.

Acho que comentário maldoso, maldoso MESMO só recebi um, que, em resumo, afirmava que se eu havia me recuperado tão rapidamente do aborto é porque eu não queria o bebê. Ouch, essa doeu.

Mas doeu só na hora. Porque eu logo conclui que não era nada pessoal. E que gente assim acorda determinada a detonar com o dia de qualquer pessoa que lhe cruze a frente. E no meio do caminho dela tinha o Piscar de Olhos. E foi nele mesmo, que ela lançou a cacetada.

***

Então, sim,  sou uma pessoa afortunada e praticamente inimigos-free. Porque, convenhamos, colecionar 7 ou 8 comentários desaforados em meio aos cerca de 3 mil comentários já feitos nos 100 posts deste blog, pra mim, é sorte que não acaba mais.

E eu nem me dou ao trabalho de ter que apagar comentário maledicente. Eu simplesmente não aprovo. Ah, não aprovo MESMO. Que o blog é meu e eu aplico nele as mesmas regras que aplico pra minha casa: e na minha casa ninguém entra com sapato sujo.

***

Mas na semana passada eu fiquei meio passada com um comentário anônimo. E queria aproveitar pra respondê-lo, posso?

Oi, Dona Anônima,

Recebi seu comentário. E não, não aprovei e nem vou aprová-lo. Este blog é gerenciado dentro do sistema ditatorial.

Não aprovei, primeiramente, pelo seu linguajar.  Veja bem,  estou longe de ser pessoa pudica. Mas palavrões aqui, só vindos de mim (ou das colega-tudo).

Segundo, porque acho que quem faltou com respeito aos portadores de TOC foi a senhora. Nunca foi minha intenção desmerecer as dificuldades de quem sofre de Transtornos Obssessivos Compulsivos.

Até porque a sombra do TOC me persegue desde a infância, se a senhora insiste em saber. Quantas vezes me vi tendo que contar até 50 de trás pra frente ou contar quantas frases tinham uma determinada música, só pra salvar meu pai de um possível acidente ou minha mãe de uma doença terminal?

Hoje ele me aborrece bem menos, porque penso nele como uma voz que sussurra medos infundados no ouvido da gente. Mas isso não quer dizer que vez em quando não acorde 3 ou 4 vezes durante a noite, só pra ver se a porta está mesmo trancada. Ou se o gás não está vazando. Ou se meu filho não foi raptado.

Falta de respeito é a senhora se referir aos portadores de TOC como loucos.  Não, dona anônima, portadores de TOC  não são loucos.  Recomendo que a senhora procure um profissional, compre um livro a respeito ou use e abuse do nosso amigo google pra descobrir um pouco mais sobre o TOC e referir-se a ele com mais respeito.

A senhora também me acusa a tirar sarro da loucura alheia. Não, eu não tiro sarro de louco. Eu sou até bem fã da loucura. E acredito que, de celulite e louco, todo mundo tem um pouco.

Um exemplo. Faz tempo que eu corro no Aterro do Flamengo. E ali no Aterro tem uma pedra bem grandona, com uma estátua de uma garça linda, branquinha, empinada, olhando para o horizonte.

Ontem de manhã, correndo no Aterro, me aconteceu a coisa mais maluca e inusitada EVER, Dona Anônima. Tá sentada? A senhora não vai acreditar, mas a estátua de garça SE MEXEU.

Eu tomei um susto tão grande, mas tão grande, que meu coração disparou, eu fiquei meio sem ar, tropecei e só não caí porque sou moça equilibrada (?).

A primeira coisa que eu fiz foi ir falar com o pipoqueiro:

- O senhor também viu?? Mexeu, viu?

- Claro que mexeu - diz o rapaz da pipoca. As garças se mexem mesmo. E voam também, sabia? - e soltou uma risadinha debochada, daquelas  que só os pipoqueiros que já viram de-tu-do-nes-sa-vi-da sabem dar.

Ai, eu fiquei muito transtornada. Se aquela garça não era uma estátua, então todo dia, toda hora, o dia inteiro parava uma garça igualzinha NA MESMA PEDRA e ficava fingindo ser estátua?!

Por toda minha corrida, não consegui pensar em outra coisa que não fosse a garça dissimulada que fingia ser estátua.

Ou seriam várias garças, um bando delas, que se alternavam na difícil tarefa de estatuar??

Talvez fosse tudo um complô garcez! E elas só iam pra cima da tal pedra quando  viam que eu estava me aproximando!!

- Aí, moçada! Lá vem a otária. Qual de nós vai estatuar hoje?

- Hahahaha, eu vou, eu vou! Mas hoje vou me mexer um pouco pra ela ficar griladona!!

- Hehehe, maneiro!

Então, Dona Anônima, veja bem: eu não me sinto em posição de menosprezar ou desconsiderar nenhum dos dois grupos mencionados pela senhora.

Não menosprezo quem tem TOC porque eu mesma tenho meus momentos difíceis.

E nem sacaneio os loucos - porque, como a senhora acabou de perceber, o presente blog é escrito por uma pessoa que tem certeza absoluta que existe CONTRA ELA um bem planejado complô, arquitetado por um grupo de malignas garças do Aterro do Flamengo.

Estamos entendidas?

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Ainda sobre comentários:  aproveito pra dizer que ando meio atrapalhada, tenho comentado pouco, me perdoem. A gente vai embora no começo de dezembro e eu e maridão temos matado uns três leões por dia. Perdoa, uma hora eu volto.

***

E já que o assunto hoje é comentário, não resisto: tenho que terminar esse post com um comentário que recebi em setembro passado, que se referia a um texto sobre a nossa amiga Gisele:



Isso é inveja sua.

Ora, se eu achei tempo pra responder ao comentário desaforado da Dona Anônima, como raios não vou responder a comentário vindo de nada menos que GISELE em pessoa, gente?

Mas daí ...parte de mim tem certeza absoluta que não foi a Gisele em pessoa que comentou meu post e sim alguma desocupada por aí. Nesse caso...Olha só, Gi, se não foi você que fez esse comentárrio, então é favor comentar o seguinte comentário:

"Claro que não fui eu que escrevi isso, ô Nanica. Era o que me faltava! Eu tenho que cuidar da cria, do marido, salvar as baleias e ainda perder meu tempo vindo num blog escrito por uma louca com mania de perseguição???"

Mas, enquanto você não me manda de volta à minha insignificância, eis minha resposta ao seu comentário.

Oi, Gisele,

Mas é claro que se trata da mais pura e desavergonhada inveja.

Mas tenta entender. Me é humanamente impossível, no auge dos meus (discutíveis) 1 metro e 67 centímetros, nutrir quaisquer sentimentos nobres para com pessoa tão alta, magra, linda e cujo filho desfralda aos 6 meses de idade.

Preciso de tempo, muita meditação e elevação espiritual para que, de minha parte, floresçam sentimentos alvos e bondosos.

Beijos e sorte na sua jornada.

PS: Você sabia, Gisele,  que suas primas (as garças), estão armando um complô contra mim?? Depois sou eu a invejosa, neah?

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

mãe desprendida, mãe neurótica

Todo mundo sabe que fazer as malas pra mudar de país é exercitar o dom do desprendimento.

E ser desprendida  é reduzir a sua bagagem e selecionar apenas e tão somente aquilo que você efetivamente vai usar lá do outro lado do mundo.

Na prática isso significa parar na frente do seu armário, analisar peça por peça e ser dolorosamente sincera com você mesma.

O seu vestidinho vermelho, por exemplo. Eu sei que ele te acompanhou em baladas inesquecíveis e só traz boas lembranças daquele fim de semana em Angra. Mas, pensa comigo - ele só fazia sentido quando você chegava na balada em câmera lenta, com cara de mistério e drink na mão.  Esse vestido não combina, meu bem, de jeito nenhum, com seu novo estilo maternidade de chegada triunfal: carrinho em punho, bolsa térmica em mãos e um pentelhinho de pouco mais de 90 centímetros que faz questão de levantar o rodopiante vestido para se esconder bem ENTRE as suas pernas. Não, querida, não ORNA.

Portanto, o vestido fica. Good bye, my friend.

Quando o assunto é sapato, a realidade pode ser ainda mais dolorosa. Sabe aquele par  de sapatos que você a-do-ra e que  são seus fiéis escudeiros pra festa classuda? Pois é, eles também ficam.

Porque existe uma razão, cara amiga mãe, desse arraso de sensualidade saltos 15 estarem esquecidos no fundo do armário: esse par de belezura está munida de saltos pré-maternidade. E embora esse lapso não venha escrito no manual-pré-filho,você e eu sabemos que a maternidade traz consigo a total incapacidade de deslizar em saltos muito altos. Seja porque seu pé cresceu (o meu nunca mais voltou ao tamanho de antes), seja porque eles não foram feitos pra equilibrar o seu peso + o peso do seu filho juntos.

Então, moça, respira fundo e exercite o tal desprendimento: os sapatos sexy mamma ficam.

E assim você vai reduzindo a sua vida inteira de ornamentos a uma, duas malas. E tudo bem. Não faz sentido atravessar oceanos com tralhas que nunca mais serão usadas.

Então você respira fundo e se sente orgulhosa do ser desprendido e elevado em que você se transformou. Uma pessoa livre da materialidade e das amarras do capitalismo - praticamente uma BUDA de tetas.

(Mas a elevação toda acaba assim que você descobre que a Dior vai liquidar estoque  BEM na semana em que você chega em Cingapura!!? Agora, se isso não for intervenção divina...)

***

Dito isto, pensei que seria missão fácil essa de exercitar o desprendimento em relação aos brinquedos do Noah. Porque não dá pra levar tudo, gente. Mas também não dá pro rapaz mudar de país, dizer tchau pra família e amigos e - ainda por cima - perder contato com o coelho Pepe pra sempre? Ah, não.  Alguns brinquedos a gente vai ter que levar.

(Abre parênteses pra explicar que nós optamos por não levar nossas coisas da casa em containers. Elas ficam, a gente compra tudo novo por lá. Essa é uma das opções dadas pela empresa - eles economizam com o container e, em troca, te ajudam a comprar tudo novo. Vale a pena, uma porque você nem sabe se seus eletros vão funcionar por lá (ou se existe assistência técnica etc) e duas porque Cingapura oferece tudo de mais moderno e bacana. Se eu estou me desfazendo do vestidinho vermelho e sapatinho sexy mamma acho que posso tranquilamente abrir mão do liquidificador walita, concordam? Fecha parênteses.)

Ocorre que, putamerda, como é difícil optar entre um teclado que ele começou a tocar aos 8 meses de idade ou um cachorro no qual ele tropeçou quando começou a andar. Tudo me remete a lembranças, tudo tem sua importância, nada é dotado de insignificância ou desdém. Afinal, essa é a história do meu filho. E o que pode ser mais importante que isso?

Mas o que tem que ser feito, tem que ser feito. E assim eu começo a doar os brinquedos que não poderão ser levados com a gente. Ando tão sentimental em relação a isso que desistimos de vender a mobília do pequeno e resolvemos doar pra um orfanato. Não que a história de vida do Noah não estaria em ótimas mãos (meninas, obrigada pelo interesse em comprar tudo!) mas porque concluimos que existem crianças que carecem de tudo - inclusive de história. E torcemos pra que o berço ou o cadeirão do filhote não sejam somente úteis, mas que sejam parte da história de alguém (que não tem história).

Ai, caraca, olha o chororô.

Daí que eu já dei alguns brinquedos, e confesso que me senti muito bem imaginando o rostinho das crianças que os receberiam. Até que chegou a hora da Bia ( A Girafa) e o Romero (O Camelo Caramelo). Daí, malandro, a casa caiu.

- Alô, amor - diz a mulher, aos prantos.

- Que foi? Que aconteceu???

- Nada importante, não se preocupa. Cê tá em reunião?

- Tô em reunião - sussurra o marido - O que aconteceu???

- Não me faça escolher entre a Bia e o Romero - responde a mulher, aos prantos - Eu te imploro: não me faça optar por um ou outro! Buáááááááááá...

- Que? Que Romero? Que Bia? Do que você tá falando, Roberta? - sussurra o marido.

- Como que Bia, François!? A girafa Bia! E o Romero, o camelo caramelo! Eu não posso ser forçada a fazer com que nosso filho viva sem um ou sem o outro!! Isso não tá certo, coitadinho!! Buááááááááááááá!

- Não fica assim - diz ele, já com voz de quem pediu licença e saiu da reunião - Olha, a gente leva os dois, tá bom?

- Promete? Buáááááááááá...

- Prometo. Nunca nessa vida a gente vai embora sem levar a Bia e o Romero. Combinado?

- Combinado. E sabe aquele meu casaco listrado? Aquele que você disse que eu nunca uso e que era melhor dar pra alguém? Então...eu quero levar ele também. Porque eu usei ele direto na gravidez do Noah...snif.

- Leva o casaco.

E o pobre marido volta pra reunião e passa a tarde inteira pensando em que merda ele ainda poderia tirar das malas dele, só pra fazer mais espaço pros brinquedos do filho( e pras neuroses da mãe).

Mas me diga, amiga (o) leitor (a):  Por acaso é fácil quando a vida nos prega peças e nos faz optar entre a girafa e o camelo?

(tô carente, sou perigosa mãe e tenho um teclado em mãos - é favor não me contrariar.)

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

o porteiro e a mãe do ET

Sumidíssima, eu sei.

Mas me diz quem é que dá conta de se desfazer de uma vida toda, preparar mudança, doar, dar, vender, comprar, cuidar de um pequeno meliante (agora em versão 2.0), despedir, viajar, chorar, beber, cair, levantar, receber visita e ainda escrever neste abandonado blog?

Tô estafada gente, cuida bem de mim.

Quem já mudou de casa,  bairro, cidade ou país sabe bem a que me refiro. Mudanças são pesadas, intensas, trabalhosas.

E, ai, como engordam as mudanças.

- Amor! Vam' chamar uma pizza?

- Mas Roberta, a gente acabou de comer.

- ôô, querido, pensa bem. Quando é que a gente vai ter a chance de comer essa pizza de novo, me diz.

- Isso é verdade.

E assim se vão semanas e mais semanas de despedida intensa da tal pizza. E do pão de queijo. E da caipirinha.

(e lá se vai o sonho de chegar ao novo país magra, esvoaçante e misteriosa)

***

Além de engordar, mudanças geralmente provocam a chamada síndrome do "sério-que-isso-sempre-esteve-aqui-e-eu-NUNCA-reparei??"

Então pela primeira vez você repara nessa árvore gigante da sua rua. E resolve consultar o porteiro:

- Moisés, me diz uma coisa, eu tô louca ou plantaram uma árvore já crescida na nossa rua?? Essa árvore já tava aqui?

- Só há uns 100 anos, dona Roberta.

- Mas Moisés, como é que eu NUNCA tinha reparado nela antes, me diz?!

E você contempla a tal árvore, até ser invadida por essa vontade louca de chorar... e abraçar... e se despedir da árvore.

- Ai, Moisés, vai ser difícil viver sem essa árvore, essa maravilha da natureza, esse presente de deus. E eu também vou sentir muita saudade de você viu?!

E pra não abraçar a árvore você dá um abraço forte no porteiro.

(que passa a ter certeza absoluta de que esse pessoal da zona sul é tudo meio esquisito mesmo).

[caption id="attachment_1332" align="aligncenter" width="500" caption="vontade louca de abraçar o porteiro e o cristo redentor"][/caption]

(espetáculo de vista, registrada pela super tia deá)

***

Noah agora tem 2 anos e eu entrei na fase "Meu-filho-é-um-ET".

Essa fase geralmente começa quando a prole passa a formar frases de sua própria autoria.

Porque se você, querida mãe, já acha deveras fofo quando a cria repete "ma-mãe", "á-gua", "pão", então imagina ao delírio que seu frágil coração materno vai chegar quando ela crescer um pouco mais, virar pra você e dizer:

- Mamãe, tudo aqui é muuultu piligoso!

ou:

"Papai, vê se chama o tácsiti" (taxi)

ou ainda:

"A minha mamãe não tem pinto, não."

Eu sempre leio e adoro as mães que transcrevem as pérolas das respectivas crias. Mas só agora entendi o que elas sentem. Certeza que cada uma delas, como eu, acha que a filha é esperta demais pra ser uma reles humana. Ou que o filho trata-se, na verdade, do Messias em pessoa.

Aqui começa a fase em que você realmente passa a acreditar que seu filho é tão, mas tão inteligente que simplesmente não pode ser deste planeta.

- Certeza que as outras crianças não são assim, amor - diz a mãe ao marido. Ele é um ET, pode ver pelo formato das orelhas.

[caption id="attachment_1327" align="aligncenter" width="500" caption="repare nas orelhas (e nas antenas!) e me diga: trata-se ou não de um ET?"][/caption]